WASHINGTON, D.C. — Em uma decisão que expõe fissuras profundas no cenário político norte-americano, o Senado dos Estados Unidos aprovou nesta quarta-feira uma resolução que restringe a capacidade do presidente Donald Trump de iniciar novas ações militares na Venezuela sem autorização explícita do Congresso. A votação apertada — 52 a 47 — representa um raro momento de rebelião bipartidária contra a política externa unilateral da Casa Branca.
O Freio Constitucional
A medida, aprovada após intenso debate, busca reafirmar o papel do Congresso como único poder com autoridade constitucional para declarar guerras. Legisladores de ambos os partidos expressaram preocupação com a escalada retórica da administração Trump em relação à Venezuela, temendo que ameaças públicas pudessem evoluir para um conflito armado sem o devido respaldo democrático.
"Esta não é uma questão partidária, mas constitucional", declarou o senador republicano Todd Young, um dos que cruzou a linha partidária. "O Artigo I da Constituição é claro: compete ao Congresso autorizar operações militares."
A resposta presidencial foi imediata e contundente. Em declarações à imprensa, Trump classificou a decisão como "vergonhosa" e acusou os senadores de "amarracar as mãos dos Estados Unidos em um momento de crise".
"Não preciso do direito internacional para agir em defesa dos interesses americanos", afirmou o presidente, reiterando sua visão de que o poder executivo deve ter ampla liberdade em questões de segurança nacional.
A retórica agressiva não se limitou à Venezuela. Em eventos recentes, Trump ampliou seu tom beligerante, sugerindo que pressão sobre Cuba exigiria "entrar e destruir o lugar" e fazendo referências enigmáticas à "segurança da Groenlândia" em discurso do vice-presidente Mike Pence dirigido à Europa.
Tensão Geopolítica em Ascensão
Analistas internacionais observam com crescente alarme a situação. "O mundo assiste, quase estupefato, à erosão acelerada dos freios e contrapesos que tradicionalmente moderaram a política externa norte-americana", comentou a professora de relações internacionais da Universidade de Georgetown, Carla Robbins.
A declaração do assessor presidencial J.D. Vance — de que Trump instruiu sua equipe a garantir que a Venezuela "faça o que os Estados Unidos precisam" — foi interpretada por diplomatas sul-americanos como uma confissão aberta de ingerência.
Um Alerta Global
A resolução do Senado, embora simbolicamente significativa, tem alcance limitado. Não reverte sanções existentes nem impede totalmente ações militares defensivas. No entanto, especialistas veem o movimento como um sinal importante de resistência institucional.
"O verdadeiro teste será se aliados tradicionais dos EUA e organismos multilaterais encontrarão coragem para confrontar mais diretamente essa abordagem disruptiva", ponderou o ex-embaixador britânico Kim Darroch. "A passividade internacional até agora apenas encoraja mais aventurismo."
A tensão entre Congresso e Casa Branca tende a aumentar nas próximas semanas, com democratas prometendo trazer à tona questões sobre outras zonas de potencial conflito onde Trump tem agido sem consulta legislativa ampla.
Enquanto isso, na Venezuela, a resolução foi recebida com cauteloso alívio pelo governo de Nicolás Maduro, que em comunicado oficial a descreveu como "um triunfo da razão sobre a ameaça imperial", ainda que especialistas locais alertem que a crise política e humanitária do país continua longe de qualquer solução.
O episódio reacende debates fundamentais sobre os limites do poder presidencial em tempos de polarização e o papel dos EUA em um mundo cada vez mais cético sobre suas intenções hegemônicas.