ESCÂNDALO NA PREVIDÊNCIA
Acordo articulado por líder evangélico gerou repasse de R$ 221 milhões sob suspeita de fraude
Uma investigação da Polícia Federal (PF) e da Controladoria-Geral da União (CGU) colocou no centro de um esquema bilionário o deputado federal Silas Câmara (Republicanos-AM), uma das figuras mais influentes da bancada evangélica. O parlamentar é apontado como o principal articulador de um acordo entre o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e a Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA), entidade agora investigada por descontos indevidos em aposentadorias.
As investigações da Operação Sem Desconto e as recentes sessões da CPMI do INSS revelam uma rede de influência que mistura política, religião e negócios familiares:
- Silas Câmara (Republicanos-AM): O deputado não apenas acompanhou o presidente da CBPA em reuniões no INSS em 2021 (Governo Bolsonaro), mas celebrou publicamente a assinatura do protocolo que permitiu descontos de até 2,5% nos benefícios de pescadores.
- Abraão Lincoln Ferreira da Cruz: Presidente da CBPA e aliado de Silas. Foi preso em flagrante por falso testemunho em novembro de 2025 durante depoimento à CPMI, após mentir sobre suas relações financeiras e a estrutura da entidade.
- Alessandro Stefanutto: Ex-presidente do INSS (Governo Lula), exonerado após a deflagração da operação sob suspeita de omissão ou facilitação no esquema de descontos associativos.
- Conexões Familiares: Dados levantados pela CPMI apontam que a filha do deputado, Milena Câmara, atuou como advogada da CBPA. Além disso, empresas ligadas a familiares de Silas, como Heber Tavares Câmara e a Fundação Boas Novas (presidida por Jônatas Câmara), teriam recebido repasses indiretos originados da confederação.
A Explosão dos Números: De R$ 30 mil para R$ 9,5 milhões mensais
O salto financeiro da CBPA após o acordo é o que mais chama a atenção dos investigadores. O esquema operava através de "mensalidades associativas" descontadas diretamente da folha de pagamento de aposentados, muitas vezes sem autorização.
No total, entre março de 2023 e abril de 2025, a entidade abocanhou R$ 221 milhões. A CGU identificou que a CBPA não possuía estrutura operacional condizente com o número de filiados e que a maioria dos aposentados entrevistados sequer sabia que estava "filiada" à entidade.
O Esquema Nacional
A Operação Sem Desconto estima que, somando todas as associações investigadas, o rombo nos bolsos dos aposentados brasileiros entre 2019 e 2024 pode chegar a R$ 6,3 bilhões. O ministro André Mendonça, do STF, já autorizou a prisão de diversos operadores financeiros e o bloqueio de bens que superam R$ 1 bilhão.
Em nota, o deputado Silas Câmara afirmou que suas ações foram "legais e transparentes" e negou qualquer irregularidade envolvendo sua família, alegando que os fatos serão esclarecidos com o tempo.