Operação Indébito: PF mira deputada do MDB-CE, prende operadores e afasta diretor do Dataprev em nova fase contra fraudes no INSS

Deputada Gorete Pereira (MDB-CE) é monitorada por tornozeleira eletrônica; ex-presidentes de associações de aposentados são presas em desdobramento da Operação Sem Desconto

Brasília – A Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU) deflagraram na manhã desta terça-feira (17) a Operação Indébito, um novo desdobramento da Operação Sem Desconto, que investiga um esquema nacional de descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões do INSS .

Ao todo, são cumpridos 19 mandados de busca e apreensãodois mandados de prisão e outras medidas cautelares nos estados do Ceará e no Distrito Federal . As ordens judiciais foram expedidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) sob relatoria do ministro André Mendonça, que já havia autorizado medidas contra investigados da Operação Sem Desconto em dezembro de 2025 .

Os alvos da operação

Deputada Gorete Pereira (MDB-CE)

A deputada federal Maria Gorete Pereira (MDB-CE) é um dos principais alvos da operação. Suplente em exercício na Câmara dos Deputados, ela foi submetida a mandado de busca e apreensão e terá que usar tornozeleira eletrônica, por determinação do ministro André Mendonça .

Segundo as investigações, a parlamentar teria ligação com o esquema da Associação dos Aposentados e Pensionistas Nacional (Aapen), presidida por Cecília Rodrigues Mota, para viabilizar descontos indevidos nos benefícios de aposentados e pensionistas .

De acordo com apurações da PF, a deputada:

  • Recebeu recursos originados dos desvios praticados pelo esquema ;
  • Abril empresas em nomes de laranjas, entre elas uma sobrinha da parlamentar, para facilitar a movimentação financeira ilícita ;
  • Manteve relação direta com a Aapen, entidade presidida por Cecília Mota, e teria participado ativamente das fraudes .

O nome de Gorete Pereira já aparecia em apurações anteriores. Em maio de 2025, foi revelado que a então parlamentar recebeu procuração da associação AAPEN para celebrar acordo de cooperação técnica com o INSS, o que lhe daria amplos poderes na formalização do vínculo com a autarquia .

Perfil: Natural de Juazeiro do Norte (CE), Gorete tem 74 anos, é fisioterapeuta e atua na política desde 2004. Atualmente, é integrante titular da Secretaria da Mulher na Câmara .

Até a última atualização, a assessoria da deputada informou não ter conhecimento detalhado sobre a operação. "Ainda estamos buscando informações sobre o ocorrido", afirmou ao Correio Braziliense .

Cecília Rodrigues Mota (presa)


A advogada e ex-presidente de associações de aposentados e pensionistas no Ceará Cecília Rodrigues Mota foi um dos alvos dos mandados de prisão cumpridos nesta terça-feira .

Cecília presidiu a Associação dos Aposentados e Pensionistas Nacional (Aapen) e a Associação dos Aposentados e Pensionistas do Brasil (AAPB), entidades investigadas por operarem o esquema de descontos indevidos .

O que diz a investigação:

  • Segundo a PF, "pessoas físicas e jurídicas relacionadas a Cecilia Rodrigues Mota receberam R$ 14.081.937,35 das entidades associativas e das empresas intermediárias relacionadas às entidades associativas" ;
  • Cecília repassou valores para pessoas ligadas a dirigentes do INSS ;
  • Ela é proprietária de várias empresas suspeitas de lavagem de dinheiro .

Em novembro de 2025, Cecília prestou depoimento à CPMI do INSS. Na ocasião, admitiu conhecer parte das pessoas citadas nas investigações da Operação Sem Desconto e confirmou ter movimentado milhões de reais, mas negou que os recursos tivessem origem ilícita .

Natjo de Lima Pinheiro (preso)


O empresário Natjo de Lima Pinheiro também foi preso na Operação Indébito .

Segundo relatório da Polícia Federal divulgado pela CPMI do INSS, Pinheiro "foi beneficiário de aproximadamente R$ 400 mil em múltiplas operações advindas das empresas de Cecilia Rodrigues Mota, uma das operadoras do esquema fraudulento" . A informação consta no requerimento de depoimento apresentado pela CPMI para convocação do empresário em agosto de 2025.

Alan Santos (afastado do Dataprev)


O ministro André Mendonça também determinou o afastamento de quatro servidores do INSS de suas funções públicas . Entre eles está Alan Santos, que ocupava o cargo de diretor de Relacionamentos e Negócios do Dataprev, empresa de tecnologia do governo federal responsável pelo processamento de dados da previdência . Santos também foi alvo de busca e apreensão.

O afastamento de servidores públicos e a presença de um diretor do Dataprev no centro das investigações indicam que o esquema pode ter contado com facilitações internas para a inserção dos descontos indevidos nos sistemas oficiais.

O esquema: como funcionava a fraude

A Operação Sem Desconto, deflagrada em abril de 2025, já havia revelado a existência de um esquema nacional de descontos indevidos em massa sobre benefícios previdenciários. À época, a CGU e a PF estimaram em R$ 6,3 bilhões o total descontado de aposentados e pensionistas entre 2019 e 2024 por entidades investigadas .

A nova fase, Operação Indébito, busca aprofundar a apuração sobre a atuação do grupo suspeito e esclarecer a prática de diversos crimes :

  • Inserção de dados falsos em sistemas oficiais do INSS para viabilizar os descontos não autorizados;
  • Constituição de organização criminosa estruturada para operar o esquema em âmbito nacional;
  • Estelionato previdenciário contra milhares de aposentados e pensionistas;
  • Ocultação e dilapidação patrimonial dos recursos desviados.

As investigações indicam que as associações de aposentados firmavam convênios com o INSS para descontar mensalidades associativas diretamente dos benefícios, mas parte desses descontos era desviada ou aplicada sem a devida autorização dos beneficiários .

Conexão com a CPMI do INSS e o caso Vorcaro

A Operação Indébito ocorre em um momento de intensa movimentação no Congresso e no STF em torno das investigações sobre fraudes no INSS.

Na véspera, o ministro André Mendonça havia determinado a suspensão do acesso da CPMI do INSS aos dados sigilosos do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, após vazamento de material íntimo do investigado. Na ocasião, Mendonça mandou devolver o material à Polícia Federal para uma nova triagem, separando provas de conteúdo pessoal [conforme noticiado anteriormente].

Agora, com a Operação Indébito, Mendonça autoriza medidas coercitivas contra novos alvos, incluindo uma parlamentar em exercício, demonstrando que as investigações sobre o sistema de fraudes no INSS continuam em ritmo acelerado, tanto no âmbito policial quanto no Congresso.

Cecília Rodrigues Mota, uma das presas nesta terça, já havia prestado depoimento à CPMI do INSS em novembro de 2025, o que indica a interlocução entre os trabalhos da comissão parlamentar e as investigações da Polícia Federal .

Próximos passos

A Polícia Federal e a CGU seguem analisando o material apreendido nos 19 mandados de busca e apreensão cumpridos no Ceará e no Distrito Federal. A expectativa é que novos desdobramentos possam surgir à medida que os dados sejam periciados.

A deputada Gorete Pereira, agora monitorada por tornozeleira eletrônica, deverá prestar esclarecimentos à Justiça. Até o momento, sua defesa não se manifestou oficialmente sobre o mérito das acusações.

A Operação Indébito expõe a complexidade do esquema de fraudes no INSS, que envolvia desde associações de aposentados e operadores financeiros até servidores públicos e uma parlamentar federal, evidenciando a capilaridade do esquema e a necessidade de aprofundamento das investigações para responsabilizar todos os envolvidos.

Postar um comentário

Sua opinião é importante!

Postagem Anterior Próxima Postagem

Formulário de contato