O Presente de Trump para Moscou: Como a invasão da Groenlândia entrega a Europa de bandeja para Putin

O Despertar Tardio: A Groenlândia e o Eco de 1938

Foto: The Daily Digest

Por Luciana Barbosa, Mestre em Ciências da Educação

A história costuma punir quem ignora suas rimas. Em 1938, a Europa assistiu, entre a paralisia e a negação, o avanço sistemático de Adolf Hitler. O que começou com a remilitarização da Renânia e a anexação da Áustria foi tratado como "ambição local" até que os tanques estivessem nas ruas de Praga. Hoje, em 2026, o mundo testemunha um fenômeno de erosão democrática e expansionismo transacional que, embora use a linguagem do "negócio", carrega o mesmo DNA da intimidação autoritária. O alvo da vez não é a região dos Sudetos, mas o Ártico; o agressor não veste farda, mas assina ordens executivas sob o lema da "Segurança Nacional".

A Doutrina do Fato Consumado

A recente operação militar dos Estados Unidos na Venezuela, que culminou na captura de Nicolás Maduro, serviu como o "laboratório" de Donald Trump. Ao quebrar o direito internacional com o bombardeio de Caracas, Washington enviou um recado claro: fronteiras são meras sugestões para quem detém o poder avassalador.

Agora, a mira volta-se para a Groenlândia. A ameaça de uma invasão a um território dinamarquês — um aliado histórico e membro da OTAN — é o ponto de ruptura definitivo da ordem mundial estabelecida no pós-1945. A resposta da Dinamarca, invocando a "Regra de 1952" para atirar primeiro e perguntar depois, não é apenas um protocolo de defesa; é o grito de um continente que percebeu, talvez tarde demais, que o "líder do mundo livre" tornou-se o principal agente de sua desestabilização.

Jogando a Europa no Colo de Putin


O erro estratégico de Trump é de uma ironia trágica. Ao tratar aliados europeus como vassalos ou obstáculos comerciais, ele está conseguindo o que décadas de diplomacia soviética não conseguiram: convencer a Europa de que a "Velha Mãe Rússia" pode ser uma parceira mais previsível do que os Estados Unidos.

  1. O Fim da OTAN: A Primeira-Ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, foi cirúrgica: a anexação da Groenlândia seria o obituário da Aliança Atlântica.
  2. Realpolitik de Sobrevivência: Se os EUA se tornam um vizinho predatório que ignora a soberania territorial da Dinamarca, a França de Macron e a Alemanha de Merz não terão escolha senão buscar um novo equilíbrio de poder.

Neste cenário, Vladimir Putin posiciona-se não como o invasor da Ucrânia, mas como o garantidor da estabilidade energética e militar de um continente abandonado pelo seu antigo protetor. A Europa começa a sussurrar uma verdade incômoda: é melhor sentar à mesa com o urso russo, cujas regras são conhecidas, do que ser atropelado pela imprevisibilidade de um líder americano que vê o mundo como um tabuleiro de Monopoly.

O Custo da Inação


Assim como na década de 30, a estratégia de "ir tomando aos poucos" funciona enquanto o mundo está distraído por crises internas ou medo da guerra total. Trump testa os limites da resistência europeia a cada declaração. Se a comunidade internacional não apresentar uma medida enérgica agora — unindo o Reino Unido de Starmer, a França e a Itália de Meloni em um bloco de defesa intransigente — o despertar ocorrerá apenas quando o Ártico já for uma estrela a mais na bandeira americana.

A Groenlândia não está à venda e a soberania não é um ativo negociável em bolsa de valores. Se a Europa não quiser repetir o destino da Tchecoslováquia, precisará entender que a diplomacia da complacência sempre termina em capitulação. O perigo não está apenas nas fronteiras, mas na ilusão de que um agressor para quando o seu apetite é saciado. A história prova o contrário: ele só para quando encontra uma parede.

Postar um comentário

Sua opinião é importante!

Postagem Anterior Próxima Postagem

Formulário de contato