Em decisão histórica, Ministério dos Transportes lança licitação de R$ 678 milhões para pavimentar trecho crítico da rodovia, atendendo a demanda de mais de 4,6 milhões de pessoas e enfrentando resistências que paralisaram gestões anteriores
Brasília – O governo federal publicou nesta terça-feira (31) o edital de licitação para a pavimentação e manutenção do chamado "trecho do meio" da BR-319, a rodovia que liga Manaus a Porto Velho e representa a única ligação terrestre entre o Amazonas e o restante do país. O investimento estimado é de R$ 678 milhões, com obras previstas para iniciar em maio .
O anúncio consolida uma virada de postura do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em relação à infraestrutura na Amazônia, colocando em prática o que nenhuma administração anterior se propôs a fazer de forma efetiva: tratar o isolamento rodoviário do Amazonas como uma questão de dignidade humana e soberania nacional, e não apenas como um conflito entre desenvolvimento e meio ambiente.
"Tirar o povo da lama e da poeira"
A BR-319 foi inaugurada em 1976, durante a ditadura militar, mas nunca recebeu manutenção adequada. Atualmente, cerca de 400 quilômetros da rodovia — justamente o trecho que corta a região mais preservada da floresta — permanecem sem pavimentação, transformando a via em um inferno logístico: lama intransitável no inverno e poeira sufocante no verão .
"Essa obra vai tirar o povo da lama no inverno e da poeira no verão", afirmou o senador Eduardo Braga (MDB-AM), um dos líderes da bancada amazonense que há décadas luta pela recuperação da estrada. "Ainda temos muito o que fazer pela BR-319. Ainda temos 54 pontes de madeira que terão de ser concretadas. Mas, sem dúvida nenhuma, hoje temos uma data e um registro histórico no coração do povo do Amazonas" .
O senador Omar Aziz (PSD-AM) também celebrou o avanço, lembrando que são mais de três décadas de espera: "Realmente, é um momento histórico para todos nós" .
Uma abordagem inédita
O que diferencia a atual gestão das anteriores é a combinação de dois fatores que antes pareciam excludentes: a determinação política para enfrentar o isolamento da região e a busca por soluções que respeitem o arcabouço legal e ambiental.
O governo federal conseguiu destravar o processo após mudanças no entendimento jurídico da Advocacia-Geral da União (AGU), que passou a classificar as intervenções como "melhoramentos em rodovia já existente" — o que permite maior agilidade nos processos de licenciamento, uma vez que a estrada já foi asfaltada em sua totalidade na década de 1970 .
O ministro dos Transportes, Renan Filho, destacou a importância da emenda do senador Eduardo Braga que alterou a legislação, permitindo a dispensa de obras para rodovias pré-existentes. "Uma rodovia já pavimentada não precisa passar pelo mesmo trâmite que uma rodovia nova", explicou .
O peso do isolamento
Para os amazonenses, a BR-319 é muito mais do que uma questão logística. Com cerca de 4,6 milhões de habitantes, Manaus é uma das poucas metrópoles do mundo sem ligação terrestre com o restante de seu país . A dependência dos modais fluvial e aéreo torna o custo de vida na região até 30% mais alto do que em outras capitais brasileiras.
Nos períodos de seca severa, como o registrado em 2024 e 2025, a situação se agrava ainda mais: rios que normalmente garantem o abastecimento tornam-se intransitáveis, e a rodovia se transforma na única alternativa para o transporte de combustíveis, alimentos e medicamentos .
O deputado federal Átila Lins (PSD-AM) resumiu o sentimento da bancada amazonense: "Finalmente vamos sair do isolamento. O Amazonas ficará finalmente ligado ao restante do país" .
Os desafios à frente
Apesar do avanço, o caminho ainda é cercado de cautelas. Ambientalistas e organizações indígenas manifestam preocupação com os impactos que a pavimentação pode trazer para a região. A zona de influência da BR-319 abrange 270 mil km² entre os rios Purus e Madeira — o equivalente a 5,4% do território da Amazônia Legal — e abriga 25 Unidades de Conservação federais e estaduais, além de terras indígenas .
Lideranças do povo Apurinã já denunciaram, em gestões anteriores, que mesmo serviços preliminares de manutenção estimularam a abertura de ramais ilegais e a grilagem de terras . O governo federal afirma estar ciente dos riscos e promete atuar em parceria com os estados para não permitir desmatamento e grilagem próximo à rodovia .
O que vem agora
O edital será publicado no Diário Oficial da União em 10 de abril, e as propostas poderão ser enviadas a partir de 30 de abril . A expectativa do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) é iniciar as obras ainda no próximo período de estiagem, com múltiplas frentes de trabalho ao longo dos 339,4 quilômetros que receberão pavimentação .
Paralelamente, o governo também autorizou a construção de uma ponte de concreto sobre o rio Igapó-Açu, no km 260 da rodovia, com investimento de R$ 44 milhões, além de obras de manutenção na BR-174, que liga Manaus a Roraima, somando mais R$ 366 milhões .
O presidente Lula deve visitar o Amazonas em abril para acompanhar o andamento das obras e lançar a ordem de serviço para a construção de um novo porto na Manaus Moderna, consolidando um pacote de investimentos que visa integrar definitivamente a região ao desenvolvimento nacional .