Medo e desespero: as declarações de Agostina Páez à imprensa argentina às vésperas do julgamento por injúria racial no Rio
Em entrevista ao jornal La Nación, a influenciadora argentina, que responde por agredir racialmente uma funcionária de loja na Barra da Tijuca, afirmou que teme pela própria vida caso seja condenada à prisão: “Eu me mato ou me matam lá dentro.”
A poucos dias do desfecho de um dos casos de racismo com maior repercussão nos últimos anos no Brasil, a ré Agostina Páez, 23 anos, concedeu uma entrevista ao tradicional jornal argentino La Nación na qual demonstra extremo desespero com a possibilidade de ser condenada a cumprir pena em regime fechado. Acusada de injúria racial contra uma funcionária de uma loja de departamentos na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, a influenciadora afirmou que a experiência de aguardar o julgamento tem sido um “calvário”.
“Se me condenarem, eu me mato ou me matam lá dentro”, declarou Agostina, em um trecho da entrevista que rapidamente repercutiu nos dois lados da fronteira. “Imagine ir para uma prisão em um país onde me odeiam e em uma prisão como são aqui no Rio.”
As declarações acendem um alerta não apenas sobre o estado emocional da acusada, mas também sobre a complexidade do caso, que envolve soberania judicial, xenofobia, saúde mental e a luta antirracista no Brasil.
O caso
Em setembro do ano passado, Agostina Páez foi presa em flagrante após proferir insultos raciais contra uma funcionária negra em um shopping na Barra da Tijuca. Testemunhas e câmeras de segurança registraram a argentina utilizando termos racistas para se referir à vítima, além de resistir à abordagem de seguranças. O episódio gerou revolta e foi amplamente compartilhado nas redes sociais, transformando Agostina em alvo de intensa campanha de repúdio.
Ela responde por injúria racial (crime inafiançável no Brasil) e, desde então, aguarda o julgamento em liberdade, com medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica e a proibição de deixar o país.
“Fizeram uma campanha com o meu rosto”
Na entrevista ao La Nación, a jovem tentou descrever o que chamou de “paranoia” e isolamento social. “Esses dois meses foram um calvário: viver com paranoia, não poder sair, sair coberta, ficar tanto tempo presa dentro de casa…”, afirmou.
Ela alegou que sua imagem foi “criminalizada” pela mídia brasileira e que teme pela própria integridade física caso seja encarcerada. “Sou uma pessoa reconhecível aqui no Brasil. Tenho muito medo pela minha integridade física”, disse.
Ao mencionar a possibilidade de ser enviada a um presídio, Agostina fez uma afirmação grave: “Eu me mato, isso não vai acontecer.” A fala sugere que, em seu entendimento, a condenação à prisão seria equivalente a uma sentença de morte, seja por ato próprio ou por violência no sistema penitenciário.
O contexto jurídico
Especialistas ouvidos pela reportagem destacam que o crime de injúria racial, previsto na Lei 7.716/89 (Lei do Racismo), prevê pena de 1 a 3 anos de reclusão, além de multa. No entanto, a aplicação da pena em regime fechado para réus primários e com circunstâncias judiciais favoráveis é considerada exceção, sendo mais comum a substituição por penas restritivas de direitos, como prestação de serviços à comunidade.
A advogada criminalista Marina Nogueira, professora de Direito Penal da UFRJ, explica que, ainda que condenada, a ré dificilmente seria encaminhada a um presídio de imediato, especialmente considerando sua nacionalidade e o fato de não possuir antecedentes criminais no Brasil.
“A fala demonstra um profundo desconhecimento do sistema de justiça brasileiro ou uma tentativa de construir uma narrativa de vitimização. O Judiciário brasileiro tem mecanismos que evitam o encarceramento de réus primários em crimes sem violência grave, mas isso não anula a gravidade do ato racista que ela cometeu”, analisa.
Reações
As declarações dividiram opiniões. Ativistas do movimento negro repudiaram o tom de autocomiseração da ré. “Ela tenta se colocar como vítima de um sistema que, historicamente, sempre vitimizou a população negra. O racismo no Brasil não é uma ‘campanha’ contra ela; é uma estrutura que mata pessoas negras todos os dias”, afirmou Tailane Rodrigues, coordenadora da Coalizão Negra por Direitos.
Por outro lado, a defensoria pública argentina no Brasil manifestou preocupação com o estado psicológico da jovem. Fontes do consulado argentino no Rio informaram que estão acompanhando o caso e que ofereceram suporte consular à acusada.
Até o fechamento desta edição, a defesa de Agostina Páez no Brasil não se manifestou sobre o conteúdo da entrevista.
Expectativa
O julgamento de Agostina Páez está previsto para ocorrer nos próximos dias na 1ª Vara Criminal do Rio de Janeiro. A expectativa é que o Ministério Público se manifeste pela manutenção da acusação e pela condenação, enquanto a defesa deve argumentar pela atipicidade da conduta ou pela aplicação de penas alternativas.
Independentemente do desfecho, o caso já se tornou um símbolo da tensão entre a rigidez da legislação antirracista brasileira e a crescente onda de casos de turistas estrangeiros que, em solo nacional, cometem crimes motivados por preconceito racial.
Se você está passando por um momento de crise emocional ou pensamentos de automutilação, procure ajuda. No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188 (24 horas) ou pelo site www.cvv.org.br.
Com informações do jornal La Nación (Argentina).